22 de novembro de 2014

Felizes são!...




Feliz é aquele que chora. O choro lava a alma da apatia, frieza e indiferença que corrompem a natureza humana. Há consolo para esses, que não se deixam dominar e serem consumidos por suas próprias mazelas, mas sentem na pele a dor do outro e, por isso, preservam sua condição de ser gente. Deus os consolará.

Feliz é aquele que ama, sinal maior da humanidade interior redimida. Aqueles que, para além dos resultados imediatistas materiais, guardam consigo os frutos da própria humanização apreendida a partir do outro. Não proferem discurso, tampouco esperam aplausos, pois sabem que o amor e a misericórdia não são escravos de preço algum. Aqueles que, mais que o pensamento, preferem o ato, mais do que o desejo, escolhem o gesto... Esses alcançarão amor e misericórdia.

Feliz é o que sabe que não sabe de nada. O que não se deixa ser marcado pelo sucesso como sinal de grandeza interior, nem pela riqueza material como referencial de bênção. São os simples, que não buscam as aparências, autênticos em sua condição de seres humanos limitados e falíveis... Felizes os pobres de espíritos que, conscientes de que o amor não se compra, deitam e dormem em tranquilidade, porque não pastoreiam a si mesmos, não carregam consigo mentiras e elogios vendidos, não estão interessados em dar a última palavra nas discussões e nas decisões. Pequenos e insignificantes aos olhos do mundo... Deles é o reino dos céus!

Feliz é quem tem fome de justiça. Esses procuram por cinco pães e dois peixinhos para repartir com os que não tem. Multiplicam recursos postos à sua disposição para levantar os que estão no chão, investem tempo, tem coragem de denunciar o que está mal no mundo... Felizes são esses que conhecem as sarjetas, vão às margens para resgatar, melhorar, fazer diferença. Como Jesus fez, fazem uma leitura do tempo e conseguem enxergar, além da pobreza, formas de superação. Esses serão satisfeitos.

Felizes são os puros de coração, aqueles que não vivem uma vida dupla. Aqueles cujas intenções estão sempre a mostra. Diferentes dos que abençoam e amaldiçoam ao mesmo tempo, que elogiam fácil, mas a crítica fica guardada no sorriso, os puros são um sinal do Cristo na Terra. Os puros de coração são aqueles que estão dispostos a caminhar a segunda milha, porque há muito já entenderam que ter um coração duplo, morno, rígido e rancoroso, é a maior fraqueza e a real tragédia para a saúde emocional de uma pessoa. Eles tem sede de serem purificados, se apegam às boas obras, ao invés de se limitarem com um estilo de vida baseado no reconhecimento. Ser puro é ser liberto das prisões do próprio eu. Por isso, sem fuga e sem medo, esses verão a Deus e Deus os verá.

Felizes os que promovem a paz. Os que olham o mundo e entendem que Deus quer que eles se envolvam na transformação deste mundo. Não pedem para serem tirados do mundo, mas estão sempre atentos para irem além da crítica e se assentarem na roda dos que realmente se importam. Feliz é o que apazigua. O pacificador é bem-aventurado porque, diferente do que o ofende, ele deixa a justiça para Deus. Mais do que exigência, esses evidenciam a Graça. Mais do que detectar a fome, esses buscam a Paz como alimento. Ao invés da opressão, lutam pelo alívio. Não com força, mas com diálogo. Eles serão chamados filhos de Deus!

Felizes são esses, que caminham em busca desses valores atemporais de Deus. Eles tem propósito para viver. Sabem o que estão fazendo, quando e por que estão fazendo. Se perseguidos, se alegram, pois estão certos de que uma grande herança encontrarão no céu.

24 de julho de 2014

A Espiritualidade do Natural



A busca por respostas sobrenaturais tem levado muitas pessoas à frustração e ao auto-engano. Às vezes, Deus responde nas mínimas coisas. Porque o seu  "sim" já está proferido por meio da obediência à sua palavra revelada através da Bíblia. A vontade de Deus não está num lugar obscuro onde nós, como cegos, tateamos para encontrá-la. Tudo é uma questão de obediência. E Deus nem sempre age de maneira sobrenatural, inclusive na própria maneira como ele escolheu para compor o seu livro, Deus usou meios também naturais. O Evangelho de Lucas em comparação ao livro de Apocalipse é um exemplo dessas duas formas de ação de Deus.

 João, enquanto estava na Ilha de Patmos, teve uma visão completamente sobrenatural em que o próprio Jesus lhe aparece, os céus se abrem, ele então é transportado para as regiões celestiais, vê coisas extraordinárias sobre o final dos tempos, e eis que surge o livro de Apocalipse. 

Lucas, por sua vez, não teve visão nenhuma, não foi levado a nenhuma dimensão sobrenatural, mas pesquisou, escreveu, coletou dados, viajou para conversar com pessoas, teve que se debruçar sobre muitos manuscritos para selecionar aquilo que era mais próximo da verdade, numa detalhada investigação que, apesar de inspirada por Deus, foi um processo também humano. 

Então, o livro de Apocalipse, porque foi dado de maneira sobrenatural é mais inspirado do que o Evangelho de Lucas? Deus escolheu ambos para compor o Novo Testamento. Um livro que foi dado por revelação sobrenatural é tão inspirado quanto um que foi  fruto de um processo natural, também inspirado por Deus.

 O problema surge quando as pessoas querem ver Deus apenas no milagre, no sonho, na revelação, no sobrenatural, e não nas mínimas coisas, onde Deus guia as pessoas no seu dia a dia, sustentando cada um, através dos meios naturais. Essa atitude reduz Deus somente à visão, à revelação e ao milagre. 

 As histórias de testemunhos sobrenaturais sempre nos impressionam muito! Nos sentimos mais motivados, até sentimos que nossa fé foi impulsionada para um patamar mais elevado. No entanto, ao darmos créditos apenas a essas experiências, desprezamos o agir de Deus na esfera natural.  

O Deus que dá um grandioso livramento de morte a uma família, é o mesmo tão merecedor de glória e gratidão por guardar cada um de seus membros para que nem do livramento precisassem.  O Deus que é digno de glória por perdoar e restaurar a vida de um assassino é o mesmo que te livrou de ter um passado igualmente digno desse perdão. Deus é o mesmo nas experiências grandiosas e sobrenaturais ou nas experiências mais simples, que nem damos conta do quanto fomos poupados e abençoados!

No entanto, tais experiências naturais passam em branco, normalmente não são merecedoras de glórias e aplausos. Mas, Deus está em cada uma delas sim, diariamente! Naquilo que é aparentemente comum e insignificante podem estar exatamente as respostas que esperamos.

Deus é bom e gracioso quando nos cura instantaneamente de uma doença humanamente incurável. Porém, ele continua sendo bom e gracioso quando usa médicos e medicamentos para nos curar, ainda que seja um processo lento e doloroso. A verdade absoluta e inquestionável sobre tudo isso é que Ele tem um plano e está conosco sempre. E é isso que, de fato, importa. 

 Devemos considerar em nossa realidade que, não podendo ter o completo conhecimento de Deus, sua forma de agir nos ensina a respeito Dele, independente se natural ou sobrenaturalmente. Assim, se por pura graça e bondade, Ele quiser nos responder ou apresentar-se a nós de maneira sobrenatural, amém. Se tivermos que conhecê-lo pelas vias naturais, pelos acontecimentos do cotidiano, da mesma forma, devemos aprender seus atributos e propriedades.  

 Exercitar essa espiritualidade é um desafio diário reservado a seres falhos e humanos, como eu e como você, e se manifesta no chão da vida, no nosso cotidiano, na naturalidade das coisas mais normais de nossas vidas. 

Exercitar a fé quando o milagre chega nunca foi tarefa difícil. Presenciar o sobrenatural de Deus é maravilhoso e tremendamente edificante. Mas é nos desertos onde somos realmente desafiados a crer. É na escassez e precariedade de nossos recursos humanos onde aprendemos a depender Dele. É no deserto onde as horas não passam, onde os aplausos não são ouvidos, onde a demora entristece o coração... 

As experiências mais íntimas e naturais, frequentemente, são as escolhidas por Ele para nos mostrar realmente quem somos e como Ele e seus pensamentos estão bem acima de nós!  Com frequência em nosso tempo, a fé verdadeira nasce quando não há o milagre. No entanto, podemos crer que ele poderá acontecer, mas se não acontecer, Deus continuará assentado no seu trono e sendo perfeitamente bom!




23 de fevereiro de 2014

Irai-vos, mas não pequeis!




A ira é um sentimento que nos empurra à vingança. É o que nos impele a fazer justiça com nossas próprias mãos, respaldados em nossos próprios critérios, motivados pelas nossas próprias razões. É uma resposta indignada, por vezes violenta, contra um ato ou uma circunstância de injustiça, na direção do injusto.

É importante esclarecer que, a princípio, a ira seria algo legítimo. São Crisóstomo diz que a indignação é necessária, e quem não se irar quando a ira é necessária, peca. Ao falar da ira de Deus em Romanos 1:17, a Bíblia diz que a ira de Deus se manifesta contra toda impiedade e injustiça praticada entre os homens. Deus é um Deus que se ira e responde de maneira violenta contra a injustiça. O exemplo mais nítido de uma ação irada de Deus é a  ação de Jesus purificando o templo, quando ele afirma que “a casa do meu pai será chamada casa de oração, mas vocês a transformaram em um covil de ladrões”. Jesus entra no templo e vira as mesas dos que praticavam comércio em nome de Deus e da religião, e expulsa do templo a chicotadas os ladrões, aqueles que haviam profanado a sacralidade da casa do seu pai.

Essa é uma ação contundente onde Jesus deixa explícita a sua absoluta indignação contra aquilo que vê. Contra o quadro que está diante dele. Jesus age indignado e age violenta e intensamente. Ele age com ira. E esta ação irada de Jesus é uma expressão visível, clara, inequívoca, deste coração de Deus, o pai, que também se ira e manifesta a sua ira contra toda a impiedade e injustiça praticada entre os homens.

Por que, então, a Bíblia considera a ira como pecado? A resposta está no fato de que esta ação indignada, contundente, violenta, contra a injustiça, somente é justificada e legítima quando a injustiça não foi praticada contra mim, ou quando a vítima não sou eu. Ou seja, quando eu sou a vítima da injustiça, a ira não é a resposta que, como cristão, eu devo dar. Jamais a resposta violenta ou contundente é legitima quando eu ajo em defesa própria. Se o injustiçado é você, a ira não cabe como motivação para resposta.

Ao contrário, a Bíblia diz que devemos dar a outra face, devemos pagar o mal que nos fizeram com o bem. “Nunca procurem vingar-se”, mas deixem com Deus a ira. Em Tiago 1:19,20,  vai o conselho: “Seja tardio em ira-se, porque a ira do homem não opera a justiça de Deus”. Aqui, Paulo está dizendo para que a ninguém retribuamos mal por mal, mas retribuamos mal com o bem. “Vençam o mal com o bem”. 

Tudo isso nos mostra que, quando os injustiçados somos nós, quando o ato de injustiça, ainda que sejam meras palavras injustas direcionadas à nós, nós reagimos passionalmente, arrebatados do senso de justiça e a ira nos cega. Quando nós somos os injustiçados, normalmente, a nossa resposta não é justa. A raiva que cresce dentro de nós é uma raiva que nos avisa que nossa vontade foi contrariada. 

Note que a raiva é uma emoção, e emocionar-se é normal. Deus criou o homem dotado de emoções. Logo, a capacidade de emocionar-se é um sintoma de saúde. Quando alguém pratica uma injustiça contra mim e meu “sangue ferve”, é um sinal de saúde emocional, porque eu reconheço minha dignidade, porque eu tenho um senso de justiça. No entanto, em Efésios 4, há um claro conselho acerca da consequência de deixarmos a ira dominar a nossa cabeça: “Irai-vos, mas não pequeis”. Na Tradução da Bíblia A Mensagem, versículo 26, diz: “É normal ficar com raiva. É claro que todos sentem raiva. Mas, não alimentem vingança no coração. Não deixem que a raiva dominem por muito tempo. Resolvam o problema”. 

Irar, mas não pecar! Isso quer dizer que quando nosso sangue ferve, é possível que a gente não segure e despeje o sangue quente em cima dos outros. O “ferver do sangue” que seria saudável, quando derramado, passa a ser pecado, porque  quando deixamos que esse sangue quente inunde nossa cabeça, a emoção toma conta, perdemos a noção da realidade, há um arrebatamento irado, e, por isso, a ira se torna pecaminosa. 

Assim, quando nossa razão perde completamente o lugar, e nossa emoção, nossa raiva toma o posto, agimos com a cabeça perdida. É essa a ira que é pecaminosa, visto que a indignação é saudável, pois devemos nos indignar diante do ilícito, do injusto. Porém,  quando foi praticado contra nós, a nossa grande tendência, por causa do nosso orgulho, é darmos uma resposta violenta e exagerada. É, então, perceptível que a  manifestação da ira está diretamente ligada ao orgulho, pois é uma expressão de um ego que não admite ser contrariado, é uma afirmação absoluta e violenta do ego dizendo “eu não admito ser tratado dessa maneira”, então eu ajo violentamente. Isso é orgulho. É interessante notar que somos passivos quando a injustiça é praticada contra os outros, e ficamos irados quando a injustiça é praticada contra nós, justamente por causa do nosso ego que não pode ser contrariado. 

A ira é também uma resposta pecaminosa quando se torna uma recusa do amor. Em Coríntios 13, Paulo afirma que o amor não se ira facilmente. O ego de quem ama é “pequeno”, por isso, para feri-lo é difícil! Pois quem ama, tem pouco ego. Quem ama tem “eu”, tem identidade. O ego, de modo grosseiro, é o “eu” que ama a si mesmo doentiamente e não permite ser contrariado. É um “eu-absoluto”, “eu-doente”, é ele quem gera em nós o egoísmo, o egocentrismo. E a ira é contra o amor. A ira é a vitória do ódio. A ira é a recusa do perdão. Porque quando o sangue sobe, fervente, antes de inundar-me para que eu reaja violentamente, eu despejo sobre este sangue fervente o amor e o perdão e, então, o sangue desce. Consequentemente, a minha ação não é irada, é amorosa. Não é a ação de quem perdeu a cabeça, mas de quem tem plena lucidez e juízo. 

A ira nos transforma em juízes ou em carrascos, e nos tira da condição de irmãos. Quando sou inundado pelo meu sangue quente, a realidade fica distorcida, eu perco a capacidade de julgar, perco a lucidez, os fatos e as palavras ficam distorcidas. É muito comum numa discussão que alguém diga “não foi isso que eu disse!”... Isso porque quem esta inundado de sangue quente, não ouve direito. Ouve, mas não ouve, porque enquanto o outro fala, eu já estou apenas arrazoando comigo mesmo para me defender à luz de minhas próprias razões e conveniências. Quando somos dominados pela ira, a lucidez vai embora, começamos a ler os fatos de maneira distorcida, porque o nosso ego foi ferido, magoado. Então, eu não enxergo direito. Eu distorço a realidade para que a realidade me seja conveniente. E, tomado por essa ira que é pecaminosa, eu deixo de ser seu irmão e passo a ser seu juiz. Quando eu ajo violentamente contra você por causa da ira, eu deixo de ser juiz e passo a ser o carrasco que executa a sentença.

Assim, quando somos afetados pela injustiça, não devemos reagir com essa indignação, pois como perdemos o juízo, nossa resposta não será uma resposta justa. O que a ira faz é com que nós cometamos loucuras, já que é um ato praticado com violenta emoção. Em Provérbios 19:11, diz que “o homem prudente é paciente, é lento à ira, e a sua glória está em ignorar uma ofensa”.  

A ira multiplica a injustiça, porque quem responde à ira, exagera na dose. A ira constrói inimizades, promove o rompimento das relações, inviabiliza os relacionamentos, a ira despersonaliza o irado que, aos poucos, vai se transformando em uma pessoa amarga, vazia, tomada pelo ressentimento, pelo ódio, pelo desejo de vingança, incapacitada para estabelecer relações de longo prazo, pois não há relações de longo prazo sem a capacidade do perdão. 

Ed René Kivitz diz que “Todo relacionamento humano chega ao seu ponto de perdão”. É o ponto quando alguém contrai para conosco uma dívida impagável e, diante disso, existem somente duas  possibilidades: o perdão, ou a inviabilidade da relação. Porque a dívida não vai ser paga. Ou rompe ou se perdoa. Desta forma, a ira perpetua a injustiça e inviabiliza as relações.

A ira é destruidora! (Provérbios 27:4).  E o maior problema é que também destrói o outro. Quando você bate em alguém, machuca também a sua mão. Bater também dói. Bater danifica, estraga também a quem bate. E o resultado da ira é briga, gente machucada, gente magoada, relacionamentos quebrados, e desejo de vingança pairando no ar. E esse desejo de vingança pode vir “maquiado” de um simples pensamento de que o outro reconheça “o grande mal que te fez”, justificando-se pelo ditado popular “Quem bate esquece, mas quem apanha, não”.  Essa atitude, fruto da ira, resulta também no desprezo. Quando o injustiçado pensa acerca do injusto: “você não é nada pra mim! Você é nada, é ninguém”. Dessa forma, tiramos a pessoa da nossa vida, nos afastamos, matamos essa pessoa dentro de nós. 

A resposta cristã à ira é a mansidão, é o espírito pacificador. Bem aventurados os mansos e pacificadores! Falar nessas duas características implica falar em perdão, amor aos inimigos, promoção da justiça pelo caminho da paz e da resposta não violenta, não irada. 

É um caminho desafiador e muito difícil! Ser capaz de não retribuir mal com mal, pela injustiça. Mas, é essa a resposta que Deus espera de nós: sermos capazes de responder com amor para nos tornarmos mais parecidos com Jesus. Que sejamos capazes de exercitar a mansidão, sermos pacificadores, antes que seja tarde demais. Que Deus faça de nós, de fato, este sinal de amor, que é marca do seu reino. Que sejamos capazes de manifestar, em todo tempo e em todo lugar, a sua bondade e seu jeito de amar.



Texto baseado na pregação do Pr. Ed René Kivitz.