23 de fevereiro de 2014

Irai-vos, mas não pequeis!




A ira é um sentimento que nos empurra à vingança. É o que nos impele a fazer justiça com nossas próprias mãos, respaldados em nossos próprios critérios, motivados pelas nossas próprias razões. É uma resposta indignada, por vezes violenta, contra um ato ou uma circunstância de injustiça, na direção do injusto.

É importante esclarecer que, a princípio, a ira seria algo legítimo. São Crisóstomo diz que a indignação é necessária, e quem não se irar quando a ira é necessária, peca. Ao falar da ira de Deus em Romanos 1:17, a Bíblia diz que a ira de Deus se manifesta contra toda impiedade e injustiça praticada entre os homens. Deus é um Deus que se ira e responde de maneira violenta contra a injustiça. O exemplo mais nítido de uma ação irada de Deus é a  ação de Jesus purificando o templo, quando ele afirma que “a casa do meu pai será chamada casa de oração, mas vocês a transformaram em um covil de ladrões”. Jesus entra no templo e vira as mesas dos que praticavam comércio em nome de Deus e da religião, e expulsa do templo a chicotadas os ladrões, aqueles que haviam profanado a sacralidade da casa do seu pai.

Essa é uma ação contundente onde Jesus deixa explícita a sua absoluta indignação contra aquilo que vê. Contra o quadro que está diante dele. Jesus age indignado e age violenta e intensamente. Ele age com ira. E esta ação irada de Jesus é uma expressão visível, clara, inequívoca, deste coração de Deus, o pai, que também se ira e manifesta a sua ira contra toda a impiedade e injustiça praticada entre os homens.

Por que, então, a Bíblia considera a ira como pecado? A resposta está no fato de que esta ação indignada, contundente, violenta, contra a injustiça, somente é justificada e legítima quando a injustiça não foi praticada contra mim, ou quando a vítima não sou eu. Ou seja, quando eu sou a vítima da injustiça, a ira não é a resposta que, como cristão, eu devo dar. Jamais a resposta violenta ou contundente é legitima quando eu ajo em defesa própria. Se o injustiçado é você, a ira não cabe como motivação para resposta.

Ao contrário, a Bíblia diz que devemos dar a outra face, devemos pagar o mal que nos fizeram com o bem. “Nunca procurem vingar-se”, mas deixem com Deus a ira. Em Tiago 1:19,20,  vai o conselho: “Seja tardio em ira-se, porque a ira do homem não opera a justiça de Deus”. Aqui, Paulo está dizendo para que a ninguém retribuamos mal por mal, mas retribuamos mal com o bem. “Vençam o mal com o bem”. 

Tudo isso nos mostra que, quando os injustiçados somos nós, quando o ato de injustiça, ainda que sejam meras palavras injustas direcionadas à nós, nós reagimos passionalmente, arrebatados do senso de justiça e a ira nos cega. Quando nós somos os injustiçados, normalmente, a nossa resposta não é justa. A raiva que cresce dentro de nós é uma raiva que nos avisa que nossa vontade foi contrariada. 

Note que a raiva é uma emoção, e emocionar-se é normal. Deus criou o homem dotado de emoções. Logo, a capacidade de emocionar-se é um sintoma de saúde. Quando alguém pratica uma injustiça contra mim e meu “sangue ferve”, é um sinal de saúde emocional, porque eu reconheço minha dignidade, porque eu tenho um senso de justiça. No entanto, em Efésios 4, há um claro conselho acerca da consequência de deixarmos a ira dominar a nossa cabeça: “Irai-vos, mas não pequeis”. Na Tradução da Bíblia A Mensagem, versículo 26, diz: “É normal ficar com raiva. É claro que todos sentem raiva. Mas, não alimentem vingança no coração. Não deixem que a raiva dominem por muito tempo. Resolvam o problema”. 

Irar, mas não pecar! Isso quer dizer que quando nosso sangue ferve, é possível que a gente não segure e despeje o sangue quente em cima dos outros. O “ferver do sangue” que seria saudável, quando derramado, passa a ser pecado, porque  quando deixamos que esse sangue quente inunde nossa cabeça, a emoção toma conta, perdemos a noção da realidade, há um arrebatamento irado, e, por isso, a ira se torna pecaminosa. 

Assim, quando nossa razão perde completamente o lugar, e nossa emoção, nossa raiva toma o posto, agimos com a cabeça perdida. É essa a ira que é pecaminosa, visto que a indignação é saudável, pois devemos nos indignar diante do ilícito, do injusto. Porém,  quando foi praticado contra nós, a nossa grande tendência, por causa do nosso orgulho, é darmos uma resposta violenta e exagerada. É, então, perceptível que a  manifestação da ira está diretamente ligada ao orgulho, pois é uma expressão de um ego que não admite ser contrariado, é uma afirmação absoluta e violenta do ego dizendo “eu não admito ser tratado dessa maneira”, então eu ajo violentamente. Isso é orgulho. É interessante notar que somos passivos quando a injustiça é praticada contra os outros, e ficamos irados quando a injustiça é praticada contra nós, justamente por causa do nosso ego que não pode ser contrariado. 

A ira é também uma resposta pecaminosa quando se torna uma recusa do amor. Em Coríntios 13, Paulo afirma que o amor não se ira facilmente. O ego de quem ama é “pequeno”, por isso, para feri-lo é difícil! Pois quem ama, tem pouco ego. Quem ama tem “eu”, tem identidade. O ego, de modo grosseiro, é o “eu” que ama a si mesmo doentiamente e não permite ser contrariado. É um “eu-absoluto”, “eu-doente”, é ele quem gera em nós o egoísmo, o egocentrismo. E a ira é contra o amor. A ira é a vitória do ódio. A ira é a recusa do perdão. Porque quando o sangue sobe, fervente, antes de inundar-me para que eu reaja violentamente, eu despejo sobre este sangue fervente o amor e o perdão e, então, o sangue desce. Consequentemente, a minha ação não é irada, é amorosa. Não é a ação de quem perdeu a cabeça, mas de quem tem plena lucidez e juízo. 

A ira nos transforma em juízes ou em carrascos, e nos tira da condição de irmãos. Quando sou inundado pelo meu sangue quente, a realidade fica distorcida, eu perco a capacidade de julgar, perco a lucidez, os fatos e as palavras ficam distorcidas. É muito comum numa discussão que alguém diga “não foi isso que eu disse!”... Isso porque quem esta inundado de sangue quente, não ouve direito. Ouve, mas não ouve, porque enquanto o outro fala, eu já estou apenas arrazoando comigo mesmo para me defender à luz de minhas próprias razões e conveniências. Quando somos dominados pela ira, a lucidez vai embora, começamos a ler os fatos de maneira distorcida, porque o nosso ego foi ferido, magoado. Então, eu não enxergo direito. Eu distorço a realidade para que a realidade me seja conveniente. E, tomado por essa ira que é pecaminosa, eu deixo de ser seu irmão e passo a ser seu juiz. Quando eu ajo violentamente contra você por causa da ira, eu deixo de ser juiz e passo a ser o carrasco que executa a sentença.

Assim, quando somos afetados pela injustiça, não devemos reagir com essa indignação, pois como perdemos o juízo, nossa resposta não será uma resposta justa. O que a ira faz é com que nós cometamos loucuras, já que é um ato praticado com violenta emoção. Em Provérbios 19:11, diz que “o homem prudente é paciente, é lento à ira, e a sua glória está em ignorar uma ofensa”.  

A ira multiplica a injustiça, porque quem responde à ira, exagera na dose. A ira constrói inimizades, promove o rompimento das relações, inviabiliza os relacionamentos, a ira despersonaliza o irado que, aos poucos, vai se transformando em uma pessoa amarga, vazia, tomada pelo ressentimento, pelo ódio, pelo desejo de vingança, incapacitada para estabelecer relações de longo prazo, pois não há relações de longo prazo sem a capacidade do perdão. 

Ed René Kivitz diz que “Todo relacionamento humano chega ao seu ponto de perdão”. É o ponto quando alguém contrai para conosco uma dívida impagável e, diante disso, existem somente duas  possibilidades: o perdão, ou a inviabilidade da relação. Porque a dívida não vai ser paga. Ou rompe ou se perdoa. Desta forma, a ira perpetua a injustiça e inviabiliza as relações.

A ira é destruidora! (Provérbios 27:4).  E o maior problema é que também destrói o outro. Quando você bate em alguém, machuca também a sua mão. Bater também dói. Bater danifica, estraga também a quem bate. E o resultado da ira é briga, gente machucada, gente magoada, relacionamentos quebrados, e desejo de vingança pairando no ar. E esse desejo de vingança pode vir “maquiado” de um simples pensamento de que o outro reconheça “o grande mal que te fez”, justificando-se pelo ditado popular “Quem bate esquece, mas quem apanha, não”.  Essa atitude, fruto da ira, resulta também no desprezo. Quando o injustiçado pensa acerca do injusto: “você não é nada pra mim! Você é nada, é ninguém”. Dessa forma, tiramos a pessoa da nossa vida, nos afastamos, matamos essa pessoa dentro de nós. 

A resposta cristã à ira é a mansidão, é o espírito pacificador. Bem aventurados os mansos e pacificadores! Falar nessas duas características implica falar em perdão, amor aos inimigos, promoção da justiça pelo caminho da paz e da resposta não violenta, não irada. 

É um caminho desafiador e muito difícil! Ser capaz de não retribuir mal com mal, pela injustiça. Mas, é essa a resposta que Deus espera de nós: sermos capazes de responder com amor para nos tornarmos mais parecidos com Jesus. Que sejamos capazes de exercitar a mansidão, sermos pacificadores, antes que seja tarde demais. Que Deus faça de nós, de fato, este sinal de amor, que é marca do seu reino. Que sejamos capazes de manifestar, em todo tempo e em todo lugar, a sua bondade e seu jeito de amar.



Texto baseado na pregação do Pr. Ed René Kivitz.