7 de abril de 2013

Senhor, quem queres que eu seja?





É interessante observar como, ao longo dos anos, o homem tem substituído alguns valores fundamentais por outros que obedecem meramente a uma escala de regras sem sentido. Essa inversão gerou nos cristãos uma necessidade grande em “fazer” para Deus, em detrimento do “estar” verdadeiramente em Deus. Apesar de todo nosso ativismo, é crucial lembrarmos de que a identidade vem primeiro que a tarefa.
Por muitos anos me perguntei qual seria minha função no reino. Não me sentia vocacionada a nenhuma missão especial, nem sentia em mim um chamado sobrenatural para conquistar povos e nações. Resumindo em termos práticos, eu me sentia qualquer coisa, menos pertencente do reino de Deus em se tratando de desempenhar uma “função útil” para Ele.
A forma como concebemos o significado de serviço influencia diretamente nosso senso de pertencimento ao reino, bem como nossa auto imagem diante Dele. Como toda estrutura muito bem organizada, no reino de Deus há dons específicos a serem aplicados conforme a necessidade de onde eles serão exercidos. O próprio Deus manifesta sua graça multiforme em diferentes ocasiões e para diferentes pessoas.
O fato é que Deus conhece as diferenças de cada um, sabe das potencialidades, habilidades, capacidade cognitiva de cada um, de cada comunidade e, por isso, entrega a cada um aquilo que é passível de ser discernido para o crescimento, para o sustento e para o exercício desses dons espirituais.
Mas, antes de qualquer exercício de tarefa, a identidade do cristão deve passar por um processo de ajustamento aos propósitos de Deus. Então, a pergunta primária não seria "Senhor, que queres que eu faça?", mas sim, "Senhor, quem queres que eu seja?". É crucial entendermos que em primeiro lugar, vem a identidade, depois a tarefa, o serviço.
Deus não soluciona problemas, ele soluciona pessoas. Em primeiro plano no coração de Deus está o próprio coração dos seus pequeninos. Ele tem interesse real em organizar toda a bagunça interior, limpar os cantinhos sujos há muito esquecidos pelos moradores de um templo que é habitado por ele mesmo. Ao exercermos uma tarefa no reino de Deus, estejamos certos de que nossa vida com Ele, primordialmente, esteja bem cuidada.
Nossa motivação deve ser, primeiramente, estar com Deus, ser Nele e Ele em nós, num relacionamento diário, em que o zelo, a paixão e a motivação estejam centrados Nele mesmo, que é nosso início e nosso fim. Se isso não acontecer, estaremos tão ocupados com a obra de Deus, que o Deus da obra ficará esquecido em nós.
Num ritmo de vida em que “estar” sem “fazer” é desesperador, desconfortante e soa como ineficiência, torna-se um desafio grande o exercício de desenvolver esse movimento inverso ao que tantos de nós vive. Porém, é fundamental para nossa saúde espiritual que isso aconteça.
O fato é que para Deus, pouco importa o que você pode fazer para Ele. Tudo é Dele, vem Dele e, em glória, deve voltar para Ele. Suas habilidades todas foram geradas Nele e entregues a você por meio dele. Nada do que temos brotou milagrosamente de nós mesmos, antes, foi criado Nele especialmente para nós.
Deus encheu nosso vazio quando nos escolheu para sermos seus filhos amados. Sua graça a cada dia nos dá sentido para viver uma vida plena de significado. Que essa seja a marca da nossa identidade.
Quem tem sua identidade curada e restaurada por Jesus não necessita se esconder atrás de um ativismo que só cansa o corpo mas não promove nem mais, nem menos comunhão com Ele. Quem tem sua identidade ajustada Nele, sabe que não necessita deixar legado algum, porque o seu viver diário já é o testemunho da transformação que Ele operou em sua vida.
Deus não é um Deus apelativo, não necessita do nosso cansaço para enxergar nossa devoção e nosso esforço em agradá-lo. Deus se alegra quando você simplesmente para tudo e deseja, de todo coração, “estar” com Ele. Descobrindo isso, não apenas conceitualmente, mas vivencialmente, você descobre que a tarefa é só consequência de uma vida que exala o amor e a graça de Deus.