26 de maio de 2016

Discípulo ou Multidão?



O sermão da montanha começa com o silêncio. Não há palavra alguma. "Vendo as multidões, Jesus subiu ao monte e se assentou...". Jesus vê no meio da multidão os seus discípulos se aproximarem dele. E então se dirige a eles... Ao chamá-los, os discípulos respondem com obediência. A obediência é, assim, o primeiro passo no caminho de se tornar discípulo. Diante do chamado de Jesus "segue-me", os discípulos não conseguiam enxergar nada mais importante na vida do que segui-lo. Nada lhes traria qualquer significado existencial. 

Ser multidão ou ser discípulo? Onde você está? 

Os motivos para que a multidão seguisse Jesus eram legítimos e óbvios. Jesus fazia milagres, multiplicava pães, peixes, operava maravilhas, curas e libertações. Jesus tinha misericórdia da multidão. Ele trazia esperança para aquelas pessoas. No entanto, o que sobra em Jesus no entusiasmo, faltava no compromisso das multidões em relação a Jesus. 

A multidão segue a Jesus por aquilo que ele pode fazer. Porém, a alegria e motivação dos discípulos estavam centrados na pessoa de Jesus Cristo. No Deus visível que andava com eles. O Ser de Jesus era o foco da sua busca e do seu encontro. Jesus dirigia suas palavras para um grupo específico. Aquele que seria o maior dos ensinamentos que Jesus pregou era direcionados aos seus discípulos.

As diferenças são claras. A multidão tem um relacionamento utilitário com Jesus, busca crescer a todo custo, e para isso lança mão de todo e qualquer esquema, enquanto os discípulos buscam ser ovelhas de Cristo, aquelas que reconhecerão a sua voz, uma vez que há um só rebanho e um só pastor (Jo 10.16); e, para isso insiste na exposição da verdade que liberta.

A multidão busca o imediato, o fim do sofrimento, da fome, da doença e bênçãos materiais. Os discípulos buscam a vida abundante e apresentam a ressurreição. A multidão é a expressão de indivíduos individualistas: buscando ter tudo o que, “pela fé”, possam conseguir. Enquanto os discípulos são indivíduos em construção no sentido de serem pessoas comunitárias: a doarem tudo o que a fé, que liberta das posses, permite doar.

A multidão são pessoas que querem desfrutar o mundo. Os discípulos exortam as pessoas a, irmanadas, não se conformarem ao mundo, mas transformá-lo. Eles só querem mais da vida de Jesus para, na vida, ser cada vez mais como Jesus. O Ser de Deus está neles e, por isso, eles caminham em uma só direção: para a pessoa de Jesus Cristo.

Cada cristão deve submeter a si mesmo a esse crivo, para descobrir de qual referencial faz parte. Embora sejam tentados a todo momento a serem como a multidão, os discípulos não se rendem, porque se lembram de que o tesouro é Cristo. Com Ele, Nele e através Dele está todo significado. Todo sentido para a vida neste mundo. 

Tudo que um discípulo quer é se parecer mais com seu mestre. A sua consciência é clara em saber que com ele, vem tudo o que precisamos para ser como ele: gente como gente deve ser, que carregam em si o Ser de Deus. E, por isso, são instruídos por ele no seu caminhar. 

Em Jesus temos tudo que precisamos saber. Nele temos o modelo para nos diferenciarmos da multidão e de toda essa poeira suja do legalismo que nos cega os olhos e só evidência mais o fato de que procuramos subterfúgios para não sermos quem Deus quer que sejamos. Deus espera de nós uma postura, embora a porta seja estreita e o caminho apertado. Mas Nele somos capacitados a aceitar a cruz como resposta. Escolha, decida, faça uma aliança com Deus, assuma o compromisso de ser discípulo.



17 de janeiro de 2016

Confissão.


Senhor, quero falar-lhe...
Tu que nem me perguntas por onde andei, mas me acolhes com um abraço...

Ainda que eu omita, sei que nada do que penso ou sou, confronta tua onisciência.
E, como um viciado que já perdeu o controle de si mesmo, busco doses cada vez maiores de excitação para conseguir a motivação necessária para me esquivar daquilo que esperas de mim.

Não são doces minhas palavras, embora o Senhor seja digno das mais belas.
Mas, que dúvida nascida nos “porões inconscientes” do meu coração poderá te surpreender? Que oração poderei eu fazer quando minhas lágrimas já dizem tudo?

Ah, Senhor... conheces até meus silêncios! Cada suspiro meu descreve como sofre minha alma pela dureza do meu coração.
Porque não sei descansar em teus braços... ainda não aprendi o caminho das águas tranquilas. E teus pastos verdejantes me parecem como uma pintura linda, mas abstrata e distante.

A minha espiritualidade tornou-se algo utilitário, consumista, superficial e pragmático... E apesar disso, sua misericórdia se renova a cada dia. E me enches de graça... Me concedes muito mais do que preciso! E guardas aqueles que eu amo dia após dia.

Que passos poderei dar em direção à tua vontade se estou tateando no escuro calabouço do meu ego?

Liberta-me das minhas prisões!
Mais do que isso: Liberta-me do gosto que tomei pelo enganoso conforto das minhas prisões!

Há contradições tão enraigadas em minha alma que não consigo manter segura minha fé. Embora Tu saiba que não duvido de Ti, nem de nenhum dos teus feitos. Conheces minha maneira de admitir que tu és Senhor.
Mas, como me submeter, como súldita que sou, sem questionar? Como confiar sem saber quais os próximos passos se meu apego ao controle excede minha própria razão?

Incompreensíveis para mim são teus atos, mesmo que, essencialmente, vejo tua imagem refletida em mim, através de qualquer ato aprovável que eu possa ter. Pois não há nada que eu possa oferecer que não tenha vindo de tuas próprias mãos para mim.

Sei que a direção da qual eu fujo é aquela que o Senhor deseja para mim.
E, apesar disso, eu sou tua, embora te resista e fuja de ti.

Senhor, penetra meu ser... Não quero ver minh'alma aprendendo a se calar, a não relutar na sua condição...

Sei que altares festivos tu queres construir nas profundezas do meu coração. E, nesse momento íntimo, em que minha alma sedenta busca por um significado real, minhas dores secretas, minhas angústias nunca conversadas, dúvidas sequer admitidas se somam para me fazer avançar em direção à tua cruz e dizer apenas: Perdoa-me, Senhor!