É interessante observar como, ao
longo dos anos, o homem tem substituído alguns valores fundamentais por outros
que obedecem meramente a uma escala de regras sem sentido. Essa inversão gerou
nos cristãos uma necessidade grande em “fazer” para Deus, em detrimento do “estar”
verdadeiramente em Deus. Apesar de todo nosso ativismo, é crucial lembrarmos de
que a identidade vem primeiro que a tarefa.
Por muitos anos me perguntei qual
seria minha função no reino. Não me sentia vocacionada a nenhuma missão
especial, nem sentia em mim um chamado sobrenatural para conquistar povos e
nações. Resumindo em termos práticos, eu me sentia qualquer coisa, menos pertencente
do reino de Deus em se tratando de desempenhar uma “função útil” para Ele.
A forma como concebemos o
significado de serviço influencia
diretamente nosso senso de pertencimento ao reino, bem como nossa auto imagem
diante Dele. Como toda estrutura muito bem organizada, no reino de Deus há dons
específicos a serem aplicados conforme a necessidade de onde eles serão
exercidos. O próprio Deus manifesta sua graça multiforme em diferentes ocasiões
e para diferentes pessoas.
O fato é que Deus conhece as
diferenças de cada um, sabe das potencialidades, habilidades, capacidade
cognitiva de cada um, de cada comunidade e, por isso, entrega a cada um aquilo
que é passível de ser discernido para o crescimento, para o sustento e para o
exercício desses dons espirituais.
Mas, antes de qualquer exercício
de tarefa, a identidade do cristão deve passar por um processo de ajustamento
aos propósitos de Deus. Então, a pergunta primária não seria "Senhor, que
queres que eu faça?", mas sim, "Senhor, quem queres que eu
seja?". É crucial entendermos que em primeiro lugar, vem a identidade, depois
a tarefa, o serviço.
Deus não soluciona problemas, ele
soluciona pessoas. Em primeiro plano no coração de Deus está o próprio coração
dos seus pequeninos. Ele tem interesse real em organizar toda a bagunça
interior, limpar os cantinhos sujos há muito esquecidos pelos moradores de um
templo que é habitado por ele mesmo. Ao exercermos uma tarefa no reino de Deus,
estejamos certos de que nossa vida com Ele, primordialmente, esteja bem
cuidada.
Nossa motivação deve ser,
primeiramente, estar com Deus, ser Nele e Ele em nós, num relacionamento
diário, em que o zelo, a paixão e a motivação estejam centrados Nele mesmo, que
é nosso início e nosso fim. Se isso não acontecer, estaremos tão ocupados com a
obra de Deus, que o Deus da obra ficará esquecido em nós.
Num ritmo de vida em que “estar”
sem “fazer” é desesperador, desconfortante e soa como ineficiência, torna-se um
desafio grande o exercício de desenvolver esse movimento inverso ao que tantos
de nós vive. Porém, é fundamental para nossa saúde espiritual que isso
aconteça.
O fato é que para Deus, pouco
importa o que você pode fazer para Ele. Tudo é Dele, vem Dele e, em glória,
deve voltar para Ele. Suas habilidades todas foram geradas Nele e entregues a
você por meio dele. Nada do que temos brotou milagrosamente de nós mesmos,
antes, foi criado Nele especialmente para nós.
Deus encheu nosso vazio quando
nos escolheu para sermos seus filhos amados. Sua graça a cada dia nos dá
sentido para viver uma vida plena de significado. Que essa seja a marca da
nossa identidade.
Quem tem sua identidade curada e
restaurada por Jesus não necessita se esconder atrás de um ativismo que só
cansa o corpo mas não promove nem mais, nem menos comunhão com Ele. Quem tem
sua identidade ajustada Nele, sabe que não necessita deixar legado algum,
porque o seu viver diário já é o testemunho da transformação que Ele operou em
sua vida.
Deus não é um Deus apelativo, não
necessita do nosso cansaço para enxergar nossa devoção e nosso esforço em
agradá-lo. Deus se alegra quando você simplesmente para tudo e deseja, de todo
coração, “estar” com Ele. Descobrindo isso, não apenas conceitualmente, mas
vivencialmente, você descobre que a tarefa é só consequência de uma vida que
exala o amor e a graça de Deus.
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