30 de julho de 2015

Da Esperança.



“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte”...



Quando o desespero alcança nosso coração e nossa mente sente-se sufocada num vale de escuridão. Tudo o que era vibrantemente alegre se desfaz em restos vazios de uma esperança destruída. Quantas vezes vemos nossa esperança ser destroçada em mil pedaços?

A sombra aniquila qualquer ambição de felicidade. A alma fica poluída e embaça a visão de um amanhecer em que a tristeza terá passado... A noite dá lugar a outra noite e nenhum raio de sol surge no horizonte. 

O dia mau não marca sua chegada, vem sorrateiro, rastejando... E chega apagando a luz para não revelar seus intentos. Fica a sombra, num vale árido, doloroso e aparentemente eterno... Pela ausência de vida em nós, por um breve momento, sentimos que nos desumanizamos. Pois como diria Rubem Alves, “permanecemos humanos enquanto existe em nós a esperança da beleza e da alegria”.

É o encontro do eu com suas angústias profundas, e a dor aguda provocada pela rejeição atravessa o peito como uma lança. A cabeça é reclinada ao peito, o gosto forte do fracasso é sentido em seus detalhes mais amargos. A idéia do consolo fisga nosso discurso, mas não fisga nossa consciência.

E filosofamos, nos aconselhamos, tentamos elucidar, elucubramos, criamos argumentos... Em vão.
Vã é a tentativa de sair do vale da sombra da morte sem ter alcançado vivencialmente o significado do que é esperança novamente.

A esperança é o primeiro raio de sol que vence nossa noite ainda mais escurecida pela tristeza e pelo desespero. Ela penetra a escuridão e prepara o solo do nosso coração para novos sonhos. Ela nos estimula e inspira a colocar nossa confiança nos ternos braços do eterno Deus, que preparou um caminho para aqueles que buscam a verdade eterna em um mundo de relativismo, mentiras, falsas promessas, traição, confusão e medo.

Somente a esperança faz com que nossa fé não seja sobrepujada pelo medo e pelo desespero. Quando nossa alma encontra-se no vale da decepção, da dor angustiante, da agonia de ver que os recursos se esgotaram, nada resta além do sentimento de total descontrole e carência em todos os níveis.

O vale aqui não é o lugar, mas é o tempo onde você se encontra quando as luzes inesperadamente assim se apagam... Fica a sombra. Do que foi, do que era pra ser...

Dizem que a esperança é o braço mais frágil da fé. Acredito que seja porque ela não nasce a partir de certezas, mas é mesmo frágil como a fé, que confia e espera as coisas que ainda não existem...

Sem a esperança, jamais conseguiríamos encarar o modo austero como as desilusões chegam e nos alcançam. E somente quando aceitamos como fenômenos reais a dor, a frustração, a rejeição e o medo é que estaremos aptos a enxergar o outro lado: Ela, a esperança. Ela, que de tanto uso banal, transformou-se num substantivo quase vazio de significado real. 

Mas, através da disciplina, ainda que enfraquecida pelo desgosto, devemos ser prudente em cultivar minúsculas e repetidas doses de ânimo, injetadas através das pequenas coisas da vida que nos dão prazer, alegria ou qualquer satisfação, mínima que seja. Lentamente, e não sem dor, vamos nos colocando em posição ereta novamente, calmamente nos tornamos imunes ao contraditório, oscilando entre momentos em que estamos nos curvando a ideia de que nada irá mudar ou acontecer.

De uma única coisa tenho certeza: ela, a esperança, vive. Renasce, se reconstrói, abre novos horizontes, faz amanhecer... Ainda que a noite pareça eterna. “Trazer à memória aquilo que pode nos dar esperança” é o único recurso que nos resta. O resto é ingênua presunção e interpretação puramente humanas.




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