“Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte”...
Quando o desespero alcança nosso coração e nossa mente
sente-se sufocada num vale de escuridão. Tudo o que era vibrantemente alegre se
desfaz em restos vazios de uma esperança destruída. Quantas vezes vemos nossa
esperança ser destroçada em mil pedaços?
A sombra aniquila qualquer ambição de felicidade. A alma
fica poluída e embaça a visão de um amanhecer em que a tristeza terá passado...
A noite dá lugar a outra noite e nenhum raio de sol surge no horizonte.
O dia mau não marca sua chegada, vem sorrateiro, rastejando... E chega apagando a luz para
não revelar seus intentos. Fica a sombra, num vale árido, doloroso e
aparentemente eterno... Pela ausência de vida em nós, por um breve momento, sentimos que nos
desumanizamos. Pois como diria Rubem Alves, “permanecemos humanos enquanto existe
em nós a esperança da beleza e da alegria”.
É o encontro do eu com suas angústias profundas, e a dor aguda provocada pela
rejeição atravessa o peito como uma lança. A cabeça é reclinada ao peito, o
gosto forte do fracasso é sentido em seus detalhes mais amargos. A idéia
do consolo fisga nosso discurso, mas não fisga nossa consciência.
E filosofamos, nos aconselhamos, tentamos elucidar, elucubramos,
criamos argumentos... Em vão.
Vã é a tentativa de sair do vale da sombra da morte sem
ter alcançado vivencialmente o significado do que é esperança novamente.
A esperança é o primeiro raio de sol que vence nossa
noite ainda mais escurecida pela tristeza e pelo desespero. Ela penetra a
escuridão e prepara o solo do nosso coração para novos sonhos. Ela nos estimula
e inspira a colocar nossa confiança nos ternos braços do eterno Deus, que preparou
um caminho para aqueles que buscam a verdade eterna em um mundo de relativismo,
mentiras, falsas promessas, traição, confusão e medo.
Somente a esperança faz com que nossa fé não seja
sobrepujada pelo medo e pelo desespero. Quando nossa alma encontra-se no vale
da decepção, da dor angustiante, da agonia de ver que os recursos se esgotaram,
nada resta além do sentimento de total descontrole e carência em todos os
níveis.
O vale aqui não é o lugar, mas é o tempo onde você se
encontra quando as luzes inesperadamente assim se apagam... Fica a sombra. Do
que foi, do que era pra ser...
Dizem que a esperança é o braço mais frágil da fé.
Acredito que seja porque ela não nasce a partir de certezas, mas é mesmo frágil
como a fé, que confia e espera as coisas que ainda não existem...
Sem a
esperança, jamais conseguiríamos encarar o modo austero como as desilusões
chegam e nos alcançam. E somente quando aceitamos como fenômenos reais a dor, a
frustração, a rejeição e o medo é que estaremos aptos a enxergar o outro lado:
Ela, a esperança. Ela, que de tanto
uso banal, transformou-se num substantivo quase vazio de significado real.
Mas, através da disciplina, ainda que enfraquecida pelo
desgosto, devemos ser prudente em cultivar minúsculas e repetidas doses de ânimo, injetadas
através das pequenas coisas da vida que nos dão prazer, alegria ou qualquer
satisfação, mínima que seja. Lentamente, e não sem dor, vamos nos colocando em
posição ereta novamente, calmamente nos tornamos imunes ao contraditório, oscilando
entre momentos em que estamos nos curvando a ideia de que nada irá mudar ou acontecer.
De uma única coisa tenho certeza: ela, a esperança, vive.
Renasce, se reconstrói, abre novos horizontes, faz amanhecer... Ainda que a
noite pareça eterna. “Trazer à memória aquilo que pode nos dar esperança” é o
único recurso que nos resta. O resto é ingênua presunção e interpretação puramente
humanas.
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