3 de abril de 2013

A Espiritualidade Nossa de Cada Dia.

  (Desabafo!)



A espiritualidade cristã moderna é extremamente marcada pelo pragmatismo. Sua relevância é determinada pela sua utilidade imediata, dado seu caráter voltado apenas para o sentido prático, funcional e produtivo. O problema é a consequência disso: relacionamentos superficiais, relações puramente utilitárias. Richard Foster em seu livro Celebração da Disciplina afirma que “a superficialidade é a maldição do nosso tempo. A doutrina da satisfação instantânea é, antes de tudo, um problema espiritual. A necessidade urgente hoje não é de um maior número de pessoas inteligentes, ou dotadas, mas de pessoas profundas”.
Outro ponto característico é a necessidade de se preencher todo espaço vazio. Não se pode deixar lacunas na agenda, na vida, no relógio, no diálogo, na convivência. O silêncio e a quietude são, paradoxalmente, realidades inquietantes. E, por fim, reina nesse cenário o consumismo, que determina o sentido, valor e realização do indivíduo.  A espiritualidade tornou-se algo utilitária, consumista, superficial e pragmática. A meditação e contemplação perderam, além do significado, o valor.
A redescoberta da espiritualidade que precisamos resgatar aponta para um caminho oposto. Num contexto em que as mensagens “fast-food” não satisfazem  o apetite da alma que anseia por Deus, o maior desafio hoje é continuar sendo quem é. As circunstâncias, os meios , as adversidades têm deformado a vida dos indivíduos de forma muita rápida e maldita. Vivemos numa era de total deterioração sociológica, o indivíduo deixando de ser quem é no coração de Deus, muitas pessoas estão regredindo, piorando.  É um desafio manter a integridade, a palavra empenhada, manter a paixão por si mesmo, que dirá pelo próximo!...
Nesse contexto geral e ao mesmo tempo, nesse momento íntimo em que almas sedentas buscam por um significado real, as dores secretas, angústias nunca conversadas, dúvidas sequer admitidas se somam para nos fazer avançar em direção a perda da nossa humanidade... A religião deixou de ser um conforto espiritual para as pessoas, e se torna, muitas vezes, uma arma para segregar, discriminar, externar ódio e explorar financeiramente ignorantes. É um câncer social. E aqueles que ousam pensar e questionar qualquer dos seus dogmas, o fazem em silêncio... Mas,  ficar em silêncio, às vezes, é a luta mais árdua!...
Semana passada estive ouvindo pela internet uma série de “desafabos teológicos” de alguns autores, teólogos, que ainda desafiam nadar contra a corrente e desafiam outros a fazerem o mesmo. É triste e é frustrante ao mesmo tempo! Porque o individualismo consumista e utilitário compromete toda a espiritualidade da igreja, além de negar a Trindade. E vai consumindo e sugando a fé de muitos...
A espiritualidade cristã na igreja moderna secularizou-se quase que por completo. Absorveu irrefletidamente as normas relacionais de uma sociedade impessoal e materialista, assumiu o divórcio entre o sistemático e o espiritual, entre a experiência e a ética, criando um modelo “maldito” de espiritualidade secularizada. Segundo Ricardo Barbosa, ela “optou pelo poder em detrimento do amor. Pelo marketing religioso ao invés da santidade, pelo que passa e perece e não pelo que é eterno, pelo exterior e não pelo interior, pelo público e não pelo secreto”.
Tudo isso tem levado a igreja, como um viciado que já perdeu o controle de si mesmo, a buscar doses cada vez maiores de excitação para conseguirem a motivação necessária para participar de um culto ou reunião de oração. Deus só é bondade se seu poder é revertido em “benção” para minha vida, somente o é na medida em que esta bondade se expressa em benefícios concretos e palpáveis para mim.
Redescobrir Deus pelo simples fato de ser quem é,  é redescobrir o princípio básico que movimenta a fé e a devoção cristã. E Deus, antes de todas as coisas, é amor. E este amor desinteressado é que estabelece o princípio das relações e resgata o sentido da vocação da igreja e da pessoalidade do cristão.
Um frase que me marcou muito foi dita uma vez num seminário sobre teologia (que, por sinal, deve ter agradado a bem poucos ali presentes...): “O dia em que o ser humano for capaz de colocar-se diante de uma mulher, negra, pobre, velha, doente, prostituta, bissexual, aidética, e ainda assim conseguir perceber beleza e dignidade humana, e for capaz de relacionar-se com afeto e ternura, significa que conseguiu romper com os vícios criados por uma sociedade consumista e impessoal”. A opção pelos pobres, disse o pregador, tem o poder de dignificar o pobre e humanizar o rico. O grande desafio que encontramos neste tempo é o da preservação da natureza comunitária da igreja a despeito de todas as investiduras contra.
Vemos hoje uma igreja que tem produzido tantos astros, mas a despeito de tantas coisas, não tem conseguido mudar a qualidade de vida das pessoas, porque o que faz não condiz com o que é, ela produz e vendo o feito dela, parece que está vida mas, é só aparência... Me fez lembrar Cristo se referindo à igreja em Sardes: “Conheço as tuas obras, Tens fama de quem vive, mas estais morta” (Apocalipse 3.1b). Mas, se tem nome, posição, obras, tudo o que é esperado de uma igreja, por que, então, morta?! Porque o que faz o faz não muda a sociedade! É uma igreja que faz barulho, mas não muda a vida, porque não tem conteúdo, não tem essência. Pois, no coração de Deus, não precisa nem fazer barulho, basta ser. Um pastor batista que gosto muito, Neil Barreto, completa dizendo que “a crise da igreja institucional é existencial. A igreja não é o que deveria ser. Que fruto esperar do que não é? A crise é de identidade”.
Tudo isso, obviamente, é fortemente alimentado e reforçado não apenas pela modernidade, mas também pelo sistema econômico e social  que nos é imposto. Num mercado neoliberal, só é reconhecido como gente quem tem poder e acesso ao mercado consumidor. A consequência imediata, é claro, é  que as relações tornam-se muito mais vinculadas a coisas do que a pessoas. Logo, encontramos dificuldades para nos relacionarmos com aqueles que são (ou que consideramos ser) desiguais socialmente, economicamente, intelectualmente ou mesmo ideologicamente. Ao contrário de nos aproximarmos dos outros pelo que são, pela beleza e mistério que carregam,  o fazemos pelo que pensam, defendem ou possuem (ou não possuem). Assim, rejeitamos e coisificamos as pessoas.
Diante de tudo isso, não é difícil a constatação de como somos presas fáceis de um modelo de vida frustrante! Neste mundo de busca por significados nas conquistas profissionais e econômicas, condicionamos nossa vida, nossa realização e felicidade àquilo que, por natureza, nunca vai nos oferecer o que de fato buscamos.
A espiritualidade de que necessitamos tem um caráter absolutamente revolucionário para nossos dias! Porque não há nela nada que nos inspire a busca pelo poder ou controle, ou qualquer outra coisa que nos leve a uma relação que não seja pessoal e afetiva com Deus e o próximo. Ela está centrada numa felicidade que se baseia unicamente em experiências cotidianas de comunhão e amizade, que se dá numa oração, num abraço amigo, numa conversa descontraída, na celebração e no partilhar da vida, no aconchego da família, na contemplação do amor de Deus...


Nenhum comentário:

Postar um comentário