(Desabafo!)
A
espiritualidade cristã moderna é extremamente marcada pelo pragmatismo. Sua
relevância é determinada pela sua utilidade imediata, dado seu caráter voltado
apenas para o sentido prático, funcional e produtivo. O problema é a
consequência disso: relacionamentos superficiais, relações puramente
utilitárias. Richard Foster em seu livro Celebração da Disciplina afirma
que “a superficialidade é a maldição do nosso tempo. A doutrina da satisfação
instantânea é, antes de tudo, um problema espiritual. A necessidade urgente
hoje não é de um maior número de pessoas inteligentes, ou dotadas, mas de
pessoas profundas”.
Outro
ponto característico é a necessidade de se preencher todo espaço vazio. Não se
pode deixar lacunas na agenda, na vida, no relógio, no diálogo, na convivência.
O silêncio e a quietude são, paradoxalmente, realidades inquietantes. E, por
fim, reina nesse cenário o consumismo, que determina o sentido, valor e
realização do indivíduo. A espiritualidade tornou-se algo utilitária,
consumista, superficial e pragmática. A meditação e contemplação perderam, além
do significado, o valor.
A
redescoberta da espiritualidade que precisamos resgatar aponta para um caminho
oposto. Num contexto em que as mensagens “fast-food” não satisfazem
o apetite da alma que anseia por Deus, o maior desafio hoje é continuar
sendo quem é. As circunstâncias, os meios , as adversidades têm deformado a
vida dos indivíduos de forma muita rápida e maldita. Vivemos numa era de total deterioração
sociológica, o indivíduo deixando de ser quem é no coração de Deus, muitas
pessoas estão regredindo, piorando. É um desafio manter a integridade, a
palavra empenhada, manter a paixão por si mesmo, que dirá pelo próximo!...
Nesse
contexto geral e ao mesmo tempo, nesse momento íntimo em que almas sedentas
buscam por um significado real, as dores secretas, angústias nunca conversadas,
dúvidas sequer admitidas se somam para nos fazer avançar em direção a perda da
nossa humanidade... A religião deixou de ser um conforto espiritual para as pessoas,
e se torna, muitas vezes, uma arma para segregar, discriminar, externar ódio e
explorar financeiramente ignorantes. É um câncer social. E aqueles que ousam
pensar e questionar qualquer dos seus dogmas, o fazem em silêncio... Mas,
ficar em silêncio, às vezes, é a luta mais árdua!...
Semana
passada estive ouvindo pela internet uma série de “desafabos teológicos” de
alguns autores, teólogos, que ainda desafiam nadar contra a corrente e desafiam
outros a fazerem o mesmo. É triste e é frustrante ao mesmo tempo! Porque o
individualismo consumista e utilitário compromete toda a espiritualidade da
igreja, além de negar a Trindade. E vai consumindo e sugando a fé de muitos...
A
espiritualidade cristã na igreja moderna secularizou-se quase que por completo.
Absorveu irrefletidamente as normas relacionais de uma sociedade impessoal e
materialista, assumiu o divórcio entre o sistemático e o espiritual, entre a
experiência e a ética, criando um modelo “maldito” de espiritualidade
secularizada. Segundo Ricardo Barbosa, ela “optou pelo poder em detrimento do
amor. Pelo marketing religioso ao invés da santidade, pelo que passa e perece e
não pelo que é eterno, pelo exterior e não pelo interior, pelo público e não
pelo secreto”.
Tudo
isso tem levado a igreja, como um viciado que já perdeu o controle de si mesmo,
a buscar doses cada vez maiores de excitação para conseguirem a motivação
necessária para participar de um culto ou reunião de oração. Deus só é bondade
se seu poder é revertido em “benção” para minha vida, somente o é na medida em
que esta bondade se expressa em benefícios concretos e palpáveis para mim.
Redescobrir
Deus pelo simples fato de ser quem é, é redescobrir o princípio básico
que movimenta a fé e a devoção cristã. E Deus, antes de todas as coisas, é
amor. E este amor desinteressado é que estabelece o princípio das relações e
resgata o sentido da vocação da igreja e da pessoalidade do cristão.
Um
frase que me marcou muito foi dita uma vez num seminário sobre teologia (que,
por sinal, deve ter agradado a bem poucos ali presentes...): “O dia em que o
ser humano for capaz de colocar-se diante de uma mulher, negra, pobre, velha,
doente, prostituta, bissexual, aidética, e ainda assim conseguir perceber
beleza e dignidade humana, e for capaz de relacionar-se com afeto e ternura,
significa que conseguiu romper com os vícios criados por uma sociedade
consumista e impessoal”. A opção pelos pobres, disse o pregador, tem o poder de
dignificar o pobre e humanizar o rico. O grande desafio que encontramos neste
tempo é o da preservação da natureza comunitária da igreja a despeito de todas
as investiduras contra.
Vemos
hoje uma igreja que tem produzido tantos astros, mas a despeito de tantas
coisas, não tem conseguido mudar a qualidade de vida das pessoas, porque o que
faz não condiz com o que é, ela produz e vendo o feito dela, parece que está
vida mas, é só aparência... Me fez lembrar Cristo se referindo à igreja em
Sardes: “Conheço as tuas obras, Tens fama de quem vive, mas estais morta”
(Apocalipse 3.1b). Mas, se tem nome, posição, obras, tudo o que é esperado de
uma igreja, por que, então, morta?! Porque o que faz o faz não muda a
sociedade! É uma igreja que faz barulho, mas não muda a vida, porque não tem
conteúdo, não tem essência. Pois, no coração de Deus, não precisa nem fazer
barulho, basta ser. Um pastor batista que gosto muito, Neil Barreto, completa
dizendo que “a crise da igreja institucional é existencial. A igreja não é o
que deveria ser. Que fruto esperar do que não é? A crise é de identidade”.
Tudo
isso, obviamente, é fortemente alimentado e reforçado não apenas pela
modernidade, mas também pelo sistema econômico e social que nos é
imposto. Num mercado neoliberal, só é reconhecido como gente quem tem poder e
acesso ao mercado consumidor. A consequência imediata, é claro, é que as
relações tornam-se muito mais vinculadas a coisas do que a pessoas. Logo,
encontramos dificuldades para nos relacionarmos com aqueles que são (ou que
consideramos ser) desiguais socialmente, economicamente, intelectualmente ou
mesmo ideologicamente. Ao contrário de nos aproximarmos dos outros pelo que
são, pela beleza e mistério que carregam, o fazemos pelo que pensam,
defendem ou possuem (ou não possuem). Assim, rejeitamos e coisificamos as
pessoas.
Diante
de tudo isso, não é difícil a constatação de como somos presas fáceis de um
modelo de vida frustrante! Neste mundo de busca por significados nas conquistas
profissionais e econômicas, condicionamos nossa vida, nossa realização e
felicidade àquilo que, por natureza, nunca vai nos oferecer o que de fato
buscamos.
A espiritualidade de que
necessitamos tem um caráter absolutamente revolucionário para nossos dias!
Porque não há nela nada que nos inspire a busca pelo poder ou controle, ou
qualquer outra coisa que nos leve a uma relação que não seja pessoal e afetiva
com Deus e o próximo. Ela está centrada numa felicidade que se baseia
unicamente em experiências cotidianas de comunhão e amizade, que se dá numa
oração, num abraço amigo, numa conversa descontraída, na celebração e no
partilhar da vida, no aconchego da família, na contemplação do amor de Deus...
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