"A teologia convencerá, não pela
certeza que põe nas respostas,
mas pela integridade com que levanta as
perguntas,
e pelo rigor com que respeita as disciplinas críticas,
históricas,
científicas e linguísticas do mundo
que tem por missão servir."
John A.
T. Robinson
Considero
a fé um dos pilares mais importantes na existência de um ser humano. Além de
suporte em momentos cruciais da vida, ela emerge como significado existencial
para a vida de muitos, e isso é o mais importante. Acredito em Deus e consigo
amá-lo de uma forma impossível de ser descrita. Mas, recuso-me a viver na
rotina proposta nesse tempo de espiritualidade vazia de sentido. Uma rotina que
me coloca numa encruzilhada, numa crise entre o real e o ideal. Uma proposta
conformista. Não desejo uma filosofia moral, desejo uma verdade prática.
Percebi
que não sou (nem quero ser) uma daquelas pessoas que adiam tanto esse
confronto, que a negação chega a criar raízes. E o que sobra da crença
verdadeira, ou de seu objeto de adoração, é tão pouco, mas tão pouco, que nem
mesmo elas sabem mais discernir em que crêem.
As
pessoas querem crer, desejam crer de verdade! Mas, não como um preenchimento de
sua existência. Querem preencher-se com consolo, mas mantém uma existência que
não conhecem direito, que não exploram por ser mais fácil andar distraído pela
vida afora. Porque existir, com consciência, dói. Existir requer esforço.
Os desdobramentos da vida não são fáceis, mas a distração impede o homem de
viver essa autenticidade vivencial. E, por isso mesmo, andam perdidos de si
mesmos. Nesse ponto, em muitos casos, entra a religião como tamponamento
existencial.
Freud
transformou em metáfora essa distração humana: “Nós desejamos ser, temos
pavor de não ser, e inventamos adoráveis contos de fadas em que todos os
nossos desejos se tornam realidade. O objetivo desconhecido que nos espera, a
alma eterna, o paraíso, a imortalidade, Deus, a reencarnação, tudo isso são
ilusões, adoçantes para reduzir a amargura da imortalidade”. Quem de nós pode
negar que isso não descreve a muitos? É inegável que muitas pessoas necessitam
de uma crença exatamente para suportarem seus medos. A espiritualidade torna-se
uma bengala onde descansam nossas dúvidas jamais confessadas. Aprendemos a
caminhar num chão onde nossos pés possam caminhar sem o tropeço de ter que se
confrontar com o medo do não-crer, tendo em vista que o não-crer, para muitos,
equivale ao não-ser. E essa é uma espécie de morte que nenhum de nós
está preparado para enfrentar.
Longe
de mim está o desejo de, considerando minha própria confusão, desorganizar algo
que esteja acomodado nos “porões inconscientes” da fé de alguém. Aprendi que
jamais devo mexer numa crença sem que tenha algo melhor para substituí-la. E
também sei que, nesse quesito, a subjetividade salta a qualquer conceito ou
teoria, pois cada ser humano, peculiarmente, necessita de cuidados específicos
para com aquilo que acredita (ou quer acreditar).
Mas,
na realidade, o que se vê hoje, na maioria das vezes, são pessoas que dizem
seguir algo que não conhecem. As pessoas seguem receitas prontas do que se deve
sentir, vestir, falar, vivenciar e adorar. A receita, descrita implicitamente
nos discursos e argumentos mal elaborados, contém os comportamentos desejáveis,
estereotipados e malogrados, fingidos e tão escancaradamente mentirosos, que
não fazem a mínima diferença na vida prática de ninguém. Quando essas pessoas
são confrontadas por outro, ou por elas mesmas, percebem que nada sabem sobre
aquilo que elas seguem desde crianças. Percebem como se tornaram produto de um
condicionamento, e como os conceitos engolidos prontos são extremamente
reforçados pela culpa e pelo medo de viverem sem “isso”, que chamaram de fé por
tanto tempo! Então, acontece uma espécie de “crise existencial
religiosa”. Percebem o quão distantes estão daquilo que acreditaram seguir.
É
inegável também que os sistemas religiosos tenham a função de oferecer
consolo e amenizar as angústias da nossa condição humana. E não há nada de
errado que seja assim, desde que o objetivo primeiro de “ajudar” seja
concretizado. Mas, não é disso que falo ao tratar de uma espiritualidade que
preencha os anseios de uma existência humana. Porque um homem consolado não é
sinônimo de um homem existencialmente tranquilo. O alcance disso está muito
além do que apresentam as liturgias tradicionais com seus paradigmas,
dogmas e rituais rotineiros.
Às
vezes, a aparência de consolo é, na verdade, apenas um alma que aprendeu a se
calar, a não relutar na sua condição, seja ela qual for. Todos desejamos ou
desejaremos consolo em circunstâncias adversas, mas mais do que isso, todos
ansiamos por algo que nos torne ao mesmo tempo autênticos e crentes de algo
maior que nós, que nos preencha e nos dê um significado, um sentido para o caos
que é ser-no-mundo.
A
ideia de eternidade nunca me motivou muito. No meu dia a dia, convivo com
muitas pessoas que amam a ideia de céu, de vida eterna. Confesso que nunca
busquei essa dimensão. Não consigo amar uma eternidade porque não a consigo
vislumbrar nem no mais alto dos meus esforços como cristã que sou. Me interessa
mais algo que me dê sentido enquanto sou aqui, agora. No entanto,
confesso minha ardente expectação por tudo o que não é apenas terreno e
temporal também. Meus esforços em crer e buscar uma espiritualidade verdadeira
evidenciam essa transcendência.
Tenho
um amigo cuja vida sempre foi dedicada aos outros. A escolha da profissão foi
motivada pelo desejo em ajudar, em fazer algo grande que atingisse o máximo de
pessoas. Ele cria os filhos com amor, ensina que os valores morais e respeito
ao próximo devem nortear suas decisões sempre. Ajuda quando pode. Doa parte do
seu tempo para ajudar algumas pessoas necessitadas. E, surpreendentemente, ele
se diz ateu! Por coincidência, se eu tivesse de citar um exemplo de
pessoa cujo comportamento é compatível com o preconizado pelo Evangelho de
Cristo, eu citaria esse amigo. É... Muitos querem mudar o mundo com suas
filosofias, teorias, conhecimentos ou crenças, mas poucos, e apenas os
melhores, conseguem viver o que ensinam.
A
espiritualidade que busco deve preencher a minha existência não de certezas e
completude, porque a dúvida e a incompletude são características inerentes à
minha condição de ser humano. Eu desejo uma espiritualidade que me faça
transcender o vazio do ideal adorado, mas jamais alcançado. Recuso uma
espiritualidade que me faça buscar o sobrenatural, sem que o natural também
seja transformado. Desejo uma espiritualidade que não se confunda com
religiosidade, que não me converta à verdade, mas ao amor, à simplicidade, ao
Deus presente-sempre, à amizade, ao respeito ao outro, à graciosa generosidade
com o próximo, ao pacifismo... tudo isso e muito mais, mas como opção
existencial.
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