3 de abril de 2013

Ainda sobre Espiritualidade...

 

"A teologia convencerá, não pela certeza que põe nas respostas, 
mas pela integridade com que levanta as perguntas, 
e pelo rigor com que respeita as disciplinas críticas, 
históricas, científicas e linguísticas do mundo 
que tem por missão servir."

John A. T. Robinson


Considero a fé um dos pilares mais importantes na existência de um ser humano. Além de suporte em momentos cruciais da vida, ela emerge como significado existencial para a vida de muitos, e isso é o mais importante. Acredito em Deus e consigo amá-lo de uma forma impossível de ser descrita.  Mas, recuso-me a viver na rotina proposta nesse tempo de espiritualidade vazia de sentido. Uma rotina que me coloca numa encruzilhada, numa crise entre o real e o ideal. Uma proposta conformista. Não desejo uma filosofia moral, desejo uma verdade prática.
Percebi que não sou (nem quero ser) uma daquelas pessoas que adiam tanto esse confronto, que a negação chega a criar raízes. E o que sobra da crença verdadeira, ou de seu objeto de adoração, é tão pouco, mas tão pouco, que nem mesmo elas sabem mais discernir em que crêem. 
As pessoas querem crer, desejam crer de verdade! Mas, não como um preenchimento de sua existência. Querem preencher-se com consolo, mas mantém uma existência que não conhecem direito, que não exploram por ser mais fácil andar distraído pela vida afora. Porque existir, com consciência,  dói. Existir requer esforço. Os desdobramentos da vida não são fáceis, mas a distração impede o homem de viver essa autenticidade vivencial. E, por isso mesmo, andam perdidos de si mesmos. Nesse ponto, em muitos casos, entra a religião como tamponamento existencial.
Freud transformou em metáfora essa distração humana: “Nós desejamos ser, temos pavor de não ser, e inventamos adoráveis contos de fadas em que todos os nossos desejos se tornam realidade. O objetivo desconhecido que nos espera, a alma eterna, o paraíso, a imortalidade, Deus, a reencarnação, tudo isso são ilusões, adoçantes para reduzir a amargura da imortalidade”. Quem de nós pode negar que isso não descreve a muitos? É inegável que muitas pessoas necessitam de uma crença exatamente para suportarem seus medos. A espiritualidade torna-se uma bengala onde descansam nossas dúvidas jamais confessadas. Aprendemos a caminhar num chão onde nossos pés possam caminhar sem o tropeço de ter que se confrontar com o medo do não-crer, tendo em vista que o não-crer, para muitos, equivale ao não-ser. E essa é uma espécie de morte que nenhum de nós está preparado para enfrentar.
Longe de mim está o desejo de, considerando minha própria confusão, desorganizar algo que esteja acomodado nos “porões inconscientes” da fé de alguém. Aprendi que jamais devo mexer numa crença sem que tenha algo melhor para substituí-la. E também sei que, nesse quesito, a subjetividade salta a qualquer conceito ou teoria, pois cada ser humano, peculiarmente, necessita de cuidados específicos para com aquilo que acredita (ou quer acreditar).  
Mas, na realidade, o que se vê hoje, na maioria das vezes, são pessoas que dizem seguir algo que não conhecem. As pessoas seguem receitas prontas do que se deve sentir, vestir, falar, vivenciar e adorar. A receita, descrita implicitamente nos discursos e argumentos mal elaborados, contém os comportamentos desejáveis, estereotipados e malogrados, fingidos e tão escancaradamente mentirosos, que não fazem a mínima diferença na vida prática de ninguém. Quando essas pessoas são confrontadas por outro, ou por elas mesmas, percebem que nada sabem sobre aquilo que elas seguem desde crianças. Percebem como se tornaram produto de um condicionamento, e como os conceitos engolidos prontos são extremamente reforçados pela culpa e pelo medo de viverem sem “isso”, que chamaram de fé por tanto tempo!  Então, acontece uma espécie de “crise existencial religiosa”. Percebem o quão distantes estão daquilo que acreditaram seguir.
É inegável também que os sistemas religiosos tenham a  função de oferecer consolo e amenizar as angústias da nossa condição humana. E não há nada de errado que seja assim, desde que o objetivo primeiro de “ajudar” seja concretizado. Mas, não é disso que falo ao tratar de uma espiritualidade que preencha os anseios de uma existência humana. Porque um homem consolado não é sinônimo de um homem existencialmente tranquilo. O alcance disso está muito além do que apresentam as liturgias tradicionais com seus  paradigmas, dogmas e rituais rotineiros.
Às vezes, a aparência de consolo é, na verdade, apenas um alma que aprendeu a se calar, a não relutar na sua condição, seja ela qual for. Todos desejamos ou desejaremos consolo em circunstâncias adversas, mas mais do que isso, todos ansiamos por algo que nos torne ao mesmo tempo autênticos e crentes de algo maior que nós, que nos preencha e nos dê um significado, um sentido para o caos que é ser-no-mundo.
A ideia de eternidade nunca me motivou muito. No meu dia a dia, convivo com muitas pessoas que amam a ideia de céu, de vida eterna. Confesso que nunca busquei essa dimensão. Não consigo amar uma eternidade porque não a consigo vislumbrar nem no mais alto dos meus esforços como cristã que sou. Me interessa mais algo que me dê sentido enquanto sou aqui, agora. No entanto,  confesso minha ardente expectação por tudo o que não é apenas terreno e temporal também. Meus esforços em crer e buscar uma espiritualidade verdadeira evidenciam essa transcendência.
Tenho um amigo cuja vida sempre foi dedicada aos outros. A escolha da profissão foi motivada pelo desejo em ajudar, em fazer algo grande que atingisse o máximo de pessoas. Ele cria os filhos com amor, ensina que os valores morais e respeito ao próximo devem nortear suas decisões sempre. Ajuda quando pode. Doa parte do seu tempo para ajudar algumas pessoas necessitadas. E, surpreendentemente, ele se diz ateu!  Por coincidência, se eu tivesse de citar um exemplo de pessoa cujo comportamento é compatível com o preconizado pelo Evangelho de Cristo, eu citaria esse amigo. É... Muitos querem mudar o mundo com suas filosofias, teorias, conhecimentos ou crenças, mas poucos, e apenas os melhores, conseguem  viver  o  que  ensinam.
A espiritualidade que busco deve preencher a minha existência não de certezas e completude, porque a dúvida e a incompletude são características inerentes à minha condição de ser humano. Eu desejo uma espiritualidade que me faça transcender o vazio do ideal adorado, mas jamais alcançado. Recuso uma espiritualidade que me faça buscar o sobrenatural, sem que o natural também seja transformado. Desejo uma espiritualidade que não se confunda com religiosidade, que não me converta à verdade, mas ao amor, à simplicidade, ao Deus presente-sempre, à amizade, ao respeito ao outro, à graciosa generosidade com o próximo, ao pacifismo... tudo isso e muito mais, mas como opção existencial.


Nenhum comentário:

Postar um comentário